terça-feira, novembro 22, 2005

ANIVERSÁRIO: Mais marés que marinheiros

Foi há tanto tempo! Era eu uma criança. A vida parecia-me uma eterna brincadeira. O tempo demorava-se e por vezes chegava mesmo a parar. E as primaveras celebravam-se com pompa e circunstância. E felicidade. Era um mundo de brincar que eu acreditava ser para sempre. Mas não foi. E os 25 anos que comemoro hoje estão aí para me fazer lembrar disso. Nunca ninguém me tinha dito que esta coisa de ser adulto fosse algo de tão sério e de tão difícil. Nunca ninguém me preparou para isto. Hoje sinto-me exausto e triste. Perdi muita coisa. Sonhos, amores, amigos, a mulher da minha vida (a tal). Ganhei outras tantas. Quatro lindas crianças – os meus sobrinhos Pedro Miguel, Rafael, Leonor e Francisco – e uma percepção do mundo absolutamente fascinante. Ficaria ainda mais triste se me dissessem que não há mais nada para aprender. Talvez estes 25 anos sejam uma boa oportunidade e um bom pretexto para me voltar a perder. Para depois me encontrar. Talvez.
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Estado de espírito para o dia de hoje

Se há arte ou ciência para lera sina
A que em nós o destino faz de nós,
Dá-me que eu a não saiba e que, indivina,
Me corra a vida vagamente e a sós.

Que quero eu do futuro que não tenho?
Que me pesa hoje, ou alegra, o que serei?
Sei, por lembrar, de que passado venho,
E, onde hoje estou, incertamente sei.

O mais, o que o futuro me dará,
Deixo a quem dê e à forma como o der.
Basta a sombra que esta árvore me dá
E a sensação de nada mais querer.

(Fernando Pessoa, 1934)

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