segunda-feira, outubro 20, 2008

QUANDO ESTAMOS INVISÍVEIS E NINGUÉM É CAPAZ DE NOS VER, ENTÃO O MELHOR É RECOMEÇARMOS, SEM NUNCA NOS RENDER



Esta é a minha caricatura. Foi feita no Verão de 2008 por um daqueles artistas de rua que costumam estar na marina de Vilamoura. Não se parece nada comigo e eu, muito honestamente, fiquei desiludido. E fiquei desiludido sobretudo porque, ingenuamente, esperava que o senhor caricaturasse alguns aspectos específicos da minha maneira de ser, isto é, que lhe fugisse o lápis e marcasse a grosso o traço daquilo tudo que eu sou ao mesmo tempo. Inevitavelmente, o que esta minha caricatura mostra é aquilo que eu pareço ser, ou seja, aquilo que uma qualquer pessoa acha que eu sou quando olha para mim e me tenta desenhar. Nesse sentido, esta caricatura é uma mentira. Embora pareça verdade.

Estou aqui com toda esta conversa para dizer que, no nosso dia-a-dia, às vezes fazemos caricaturas toscas das pessoas que nos surgem pela frente, independentemente do tipo de relação que se estabeleça com elas. Na verdade, confiamos demasiado nos nossos sentidos e, por vezes, salientamos aquilo que é mais evidente (e mais fácil) pese embora a importância seja quase nula. Reparem que, na minha caricatura, o que surge salientado são os meus óculos, porventura porque era o mais evidente perante os olhos do caricaturista (e o mais fácil de desenhar). Em muitas situações o que nós fazemos na nossa vida é precisamente isto. Retratamos as pessoas de uma determinada forma, salientando este ou aquele aspecto mais evidente, e depois emoldura-se essa caricatura e diz-se em voz alta: aquela pessoa é assim. Ou seja, todos nós temos nas nossas cabeças tantas caricaturas quantas pessoas conhecemos. E adoramos catalogar e etiquetar. E, sobretudo, generalizar. Somos todos artistas uns dos outros. Nunca fomos capazes de perguntar quem és tu? e de esperar pacientemente por uma resposta.

Mas se tudo isto parece ingénuo, a coisa agrava-se quando nos apercebemos que o nosso modo de funcionamento tem por base o preconceito. Se tiverem a paciência de ler as dezenas de textos que escrevi nos últimos anos neste blogue, não importa se me conhecem pessoalmente ou não, então depressa chegarão à conclusão que o Ricardo é um tipo muito deprimido, e triste, e pessimista, e com uma visão da vida muito negativa, que fala da morte e dos desamores, e da dor, e que se farta de lamentar, e que vive num mundo cinzento, etc. Surge então a caricatura a vincar preconceituosamente os meus óculos e a minha barba cerrada. Mas o que o Ricardo é só encontra condições de expressão e de impressão na falta de nexo. Nada pior do que vivermos rodeados de pessoas que não são capazes de nos olhar e de nos ver tal como nós realmente somos. De ver e de aceitar. E o que realmente somos é, insisto, um tudo ao mesmo tempo, isto é, um tudo em que cabe o optimismo e o pessimismo, a alegria e a tristeza, a dor e o prazer, o cinzento e as cores, o amor e o ódio, a frustração e a concretização, etc. É preciso é paciência. E é quando nos apercebemos que estamos invisíveis perante os outros que surge a necessidade de recomeçar. E é por isso que este blogue termina hoje o seu tempo de vida.

Os tempos de hoje não estão fáceis. Nota-se isso em todos os domínios da nossa vida, a começar pelo frigorífico que está cada vez mais branco, e a terminar nos lamentos surdos dos nossos amigos e conhecidos. Não estamos nos nossos melhores dias e vamos continuar a não estar nos nossos melhores dias. O país, esse, agudiza a sua pobreza, e permanece sujo, desigual, excluído. Aliás, o país já não sabe muito bem o que é ser país. A educação está quase morta, a justiça está um caos, a economia está em convulsões, a saúde gangrenou, mas mesmo assim o país agita bandeiras e injecta em si um optimismo sintético na expectativa de o Cristiano Ronaldo poder vir a ser considerado o melhor jogador do mundo. As televisões entopem-nos de lixo e nós deixamos. O primeiro-ministro mente descarada e deliberadamente e nós deixamos até porque já não queremos mesmo saber. Os condomínios privados são uma coisa chique mas poucos se apercebem que isto nos mostra como o Estado já não consegue assegurar a protecção dos seus cidadãos, sentindo estes a necessidade de se protegerem. Pois, os tempos de hoje não estão nada fáceis. E os de amanhã não vão estar melhor. E eu estou seriamente preocupado com tudo isto porque é uma herança pesada, e eu tenho quatro sobrinhos muito pequeninos e espero vir a ter os meus filhos, e eles vão ter uma vida muito difícil. E estou seriamente preocupado porque eu sei que eles vão ter mesmo uma vida muito difícil. Não consigo ser psicopata. O que eu acho é que perdemos todos a nossa aptidão evolutiva e esquecemo-nos que, como dizia o filósofo britânico Cyril Joad, «a nossa obrigação é deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontrámos». Tornámo-nos pois nuns egoístas da merda que pensam, vêem e agem no imediato e em função das suas supostas necessidades. Aliás, o egoísmo e o imediatismo são a marca destes tempos e a todos os níveis. Podia até ser um egoísmo útil mas não é porque ninguém sabe o que quer, apenas o que não quer. A dúvida sobre se o sol nascerá amanhã é mesmo real.

Perante este quadro negro, não queria terminar sem deixar uma nota de optimismo. Para isso retomo um ensaio sobre os orangotangos escrito há já algum tempo e que, julgo eu, serve perfeitamente de metáfora para aquilo que eu quero salientar. Começava assim: A vida, sendo difícil por princípio, é na verdade mais difícil para uns do que para outros. E, por vezes, mesmo sem sabermos, tornamos essas vidas ainda mais difíceis. Mas comecemos pelo princípio. Tenho uma amiga que comprou uma casa. A sua primeira casa. É o mais banal dos sonhos embora seja cada vez mais o menos concretizável. Excepto se tivermos pais ricos ou se tivermos ganho a lotaria. Neste caso a sorte é dela. Tem pais ricos. O seu T4 no Chiado com vista para o rio Tejo é a menina dos seus olhos. Uma casa sofisticada, moderna e bem localizada que encaixa na perfeição naquilo que ela considera ser a sua «cara». Mas não se vive numa casa vazia. É fundamental recheá-la. Convidou-me para ir com ela a uma loja de móveis, uma das muitas que balizam a nobre avenida Almirante Reis. Entrámos e sentámo-nos confortavelmente em frente da vendedora da loja. A minha amiga foi pragmática. Queria ver mobiliário de sala exclusivamente fabricado em madeira da Indonésia. Comecei a ficar mal disposto. Mais mal disposto fiquei quando vi passarem-me pela frente dezenas e dezenas de catálogos de mobílias assim e assado, todas elas, claro está, feitas em madeira da Indonésia. A minha amiga lá escolheu um conjunto do mais piroso que se possa imaginar mas obviamente de acordo com a sua «cara», ou seja, na caríssima madeira da Indonésia. Caprichos?! De uma assentada só gastou o equivalente ao meu rendimento anual. O que, convenhamos, também não é difícil. Passadas precisamente duas semanas, convidou-me para ir ver a sua nova mobília colocada no seu devido lugar. Sentados na sua ampla sala, tendo o rio Tejo como pano de fundo e bem acompanhados por um garrafa de Gouvyas Vinhas Velhas, e obviamente cercados pela sua nova mobília em madeira da Indonésia, armei-me em moralista, quer dizer, armei-me em parvo, e resolvi contar-lhe a história dos orangotangos da Indonésia, precisamente aqueles que ficaram sem casa para que ela tivesse, no conforto do seu mundo, a melhor mobília que ela podia desejar. A conversa foi breve e sensata. Comecei por lhe dizer, em jeito de introdução, que os cientistas estimam que se extinguem 20 a 30 mil espécies tropicais por ano, 50 a 80 por dia, 3 por hora. E que as principais causas desta extinção em massa se deve fundamentalmente a alterações do habitat, como a desflorestação ou os incêndios. Peguei, como gosto sempre de o fazer, no exemplo do pássaro Dodó, esse pássaro feio e desengonçado que os marinheiros Portugueses descobriram nas Ilhas Maurícias quando por mares nunca dantes navegados davam novos mundos ao mundo. Aquelas ilhas nunca tinham sido exploradas. Os Portugueses foram os primeiros. Seguiram-se depois os Holandeses, os Franceses e os Ingleses. Uma das principais tarefas destes forasteiros foi dizimar a floresta porque a madeira era de elevado valor. Alguns dos pássaros nativos morreram em consequência porque não tinham qualquer forma de se adaptarem a uma vida sem árvores. Já o Dodó, esse, também uma ave, extinguiu-se doutra forma. Também por culpa do Homem. Claro. Mas mataram-nos. Comeram-nos a todos.

Das Maurícias fui directamente para a Indonésia, essa miríade de ilhas vulcânicas que todos gostávamos de visitar pelo menos uma vez na vida. Comecei por lhe dizer que a madeira da Indonésia vem mesmo da Indonésia. Pareceu-me oportuno dizer isto. E depois disse-lhe que os orangotangos ocupam duas ilhas da Indonésia: Sumatra e Bornéu. São animais absolutamente fascinantes e perfeitamente adaptados ao ambiente arborícola. Quer dizer. Andam de árvore em árvore. A 50 metros do solo. Pois é nelas que eles vivem. É a sua casa. O seu espaço. O seu home sweet home. Os orangotangos de Sumatra são mais pequenos que os de Bornéu. Isto porque os de Sumatra raramente descem ao solo por causa dos tigres. Os de Bornéu não têm essa preocupação. Por isso comem mais. E também por isso são maiores. Fixa bem isto. Os orangotangos vivem nas árvores. Em Sumatra raramente descem ao solo. Por causa dos tigres. Estima-se que actualmente nestas duas ilhas existam apenas 100 mil orangotangos (há quem conte apenas 20 mil) e daqui a 20 anos serão apenas uma memória. Estarão extintos. Porquê? Porque por esse mundo fora há milhares e milhares de primatas humanos a querer decorar a sua casa com mobília feita de madeira da Indonésia. E como eu te disse há pouco, a madeira da Indonésia vem mesmo da Indonésia. E a madeira é a madeira das árvores, precisamente as milhares de árvores que são abatidas todos os anos em Sumatra e Bornéu. Uma autêntica e trágica devastação. Em nome da predação económica. Dos tais forasteiros. Daqueles que fazem o trabalho sujo mas também daqueles que sustentam o mercado. Consumindo. Porque, afinal, são estes que puxam o fio. Como também te disse há pouco, os orangotangos vivem nas árvores. Ora, se lhes tiramos as árvores deixa de haver orangotangos. Não deixa de ser curioso que os mesmos forasteiros, que gozam da complacência das autoridades locais, ainda têm tempo para pegar nalguns exemplares e vendê-los para o estrangeiro pois há quem não se contente apenas com a madeira. No fim, restam apenas as organizações não governamentais que perante esta tragédia, que é de todos, vai fazendo o que pode. Em Bornéu a situação é dramática. Forças armadas da ONU travam diariamente uma autêntica batalha com os forasteiros armados que insistem nesta forma de ganhar o seu pão. Cerca de mil orangotangos são caçados por ano na província Kalimantán, em Bornéu, e contrabandeados no mercado negro da mesma província. Por vezes uma cria de orangotango chega a ser vendida a «clientes internacionais» por 50 mil dólares. Negócio apetitoso, não é?

O vinho acabou-se. Tive de concluir. O desinteresse dela na conversa anulou qualquer interesse que ela teria inicialmente pela minha carne. E conclui assim: nas duas horas que gastámos na loja de móveis na Almirante Reis, extinguiram-se 6 espécies. Obviamente com o teu contributo. Um contributo que, por ignorância ou por indiferença, fizeste questão de trazer para casa. Um bocado de madeira que é afinal um bocado de vida que lá bem longe deixou de ser. Longe da vista, longe do coração. Talvez seja esse o nosso grande pecado. Terminei o monólogo. O meu pressuposto estava correcto. Mandou-me dar uma curva. E eu fui. Nessa noite quase que acreditei que melhor do que um orgasmo efémero somente uma consciência tranquila. Mas mais importante do que isso é que, afinal, nós podemos sempre escolher.

Fiz-me entender?! Nós podemos sempre escolher. Seja na nossa vida profissional ou pessoal, seja no exercício da nossa cidadania, nas nossas relações de amizade ou de amor, etc. Nós podemos escolher. E é na escolha que nos sentimos livres.

A minha escolha é esta e é uma maneira de dizer:
Recomeço. Não me rendo.


May the force be with you!

Um abraço do Ricardo e até amanhã :-)

2 comentários:

b disse...

Para Sempre, acabou para sempre..?

Anónimo disse...

Sim, podemos e devemos sempre escolher! O melhor para nós :-)