terça-feira, setembro 16, 2008

SOL




A morte do sol constitui o fim de todos os fins, depois de ter sido o princípio de todos os princípios. Sem o sol as plantas e os animais nunca teriam condições para existir. No dia em que o sol não aparecer, chorem muito. É que isso significa que, muito provavelmente, ele morreu. Para sempre.

quarta-feira, agosto 27, 2008

ESTADOS DE ESPÍRITO: CADA DIA PENSO EM TI

A letra desta música fascina-me.
Não porque é bonitinha ou porque é cantada pela não menos bonitinha Shakira.
Mas sobretudo porque funciona como espelho de um estado de espírito.
Exterioriza-o. Dá-lhe corpo. E acalma a nossa sede. E isso é bom.
Cada dia penso em ti
Amanhece e penso em ti
Penso um pouco mais em ti
E sigo pensando...
Não é obcessão. É amor.
Ai eu!


segunda-feira, agosto 25, 2008

NOVO BLOGUE: CANÇÕES SOBRE AS COISAS MAIS PRECIOSAS QUE NÃO TEMOS



















«(...) Um etnólogo passou uma grande quantidade de tempo com um grupo de índios, navajos, se não me engano, para estudar as suas canções. Gravou centenas delas, e aprendeu a decifrar-lhes todas as sílabas. E aquilo era tão conspícuo que teve mesmo que perguntar. Ouve lá, disse ele a um amigo navajo. Isto não deixa de ser curioso. Todas as vossas canções falam de água. Pois, respondeu o navajo. Nós, como todos os povos do mundo, fazemos das nossas canções hinos às coisas mais preciosas que não temos. Ao dizer isto o navajo franziu as sobrancelhas e fez uma pausa, surpreendido por um pensamento que ainda não lhe tinha ocorrido. Tem piada, disse ele por fim ao estudioso. As vossas canções... são todas sobre o amor, não são?»

(Clara Pinto Correia, in Volta ao Mundo, Janeiro de 1998)

Este blogue surge associado a um estudo que estou a desenvolver, digamos assim, no âmbito da filosofia da vida, que consiste fundamentamente numa tentativa de leitura entre-linhas de algumas das canções cantadas por Jorge Palma, como modo de insinuação do sentido da vida (ou da falta dele, ou ainda da busca dele) do homem contemporâneo. Até porque «nós já vivemos cem mil anos». E é tempo de nos deixarmos de merdas, de arregaçarmos as mangas e de gritármos bem alto que não somos uns demitidos e que não queremos fazer parte da cepa torta. Topam?

Disponível em http://musicasjorgepalma.blogspot.com/ (ainda em construção)
CANÇÕES DESSES TEMPOS: AINDA JORGE PALMA

quinta-feira, agosto 21, 2008

E EU PENSEI...

O tempo não passa.
O tempo passa depressa demais.
O melhor é desistir de procurar no tempo
aquilo que ele não tem para me dar.
Vou tentar no espaço.
Pode ser que ele seja menos implacável
e me mostre o caminho.
Pois.
Todos os caminhos vão dar a Roma.
Se bem que eu preferia Florença mas ok.
Eu vou.
Se ele me quiser levar.

quarta-feira, agosto 20, 2008

GRANDES PAISAGENS: DOURO HÁ INSTANTES


terça-feira, agosto 19, 2008

COISAS QUE SE DIZEM POR AÍ

«A saudade, mais do que um castigo, é um crime»

terça-feira, agosto 12, 2008

CANÇÕES DESSES TEMPOS: JORGE PALMA

quarta-feira, julho 16, 2008

AINDA O MESMO SINAL DOS TEMPOS: ANÚNCIOS PESSOAIS

O psicólogo Nuno Nodim publicou recentemente na revista Análise Psicológica um artigo muito interessante intitulado “A vida sexual dos anúncios pessoais: Uma revisão da literatura” (referência em baixo). Expurgando toda aquela linguagem própria de um artigo científico, há alguns aspectos que eu gostaria de sublinhar sobretudo porque vão ao encontro daquilo que, no quotidiano, nos surge como algo que é assim e que já ninguém questiona precisamente porque é assim que as coisas acontecem todos os dias chegando ao ponto de parecer que nada se passa. Vejamos. Em todos os estudos realizados que recorreram a anúncios para avaliar dimensões de género no processo de corte, verificou-se a existência de «um padrão em que mulheres tendem a oferecer atractividade física e idade jovem e a procurar estabilidade financeira e estatuto, e em que os homens procuram atracção física e oferecem estabilidade financeira e idade superior». Bem, é claro que dizer-se que existe um padrão não significa necessariamente que todas as coisas aconteçam assim no absoluto. É preciso parcimónia. No entanto, a existência de um padrão é revelador de uma tendência para que as coisas aconteçam assim no relativo. Logo, a probabilidade de fazermos parte desse padrão ou de nalgum momento da nossa vida termos de lidar com ele é bastante elevada. Pois bem. As mulheres oferecem atractividade física e idade jovem e procuram estabilidade financeira e estatuto. No exagero caricatural, é a imagem da jovem bonitinha que procura o empresário de sucesso, o actor de uma novela de prime time, o futebolista daquele grande clube. É também a imagem da jovem bonitinha que gosta de ir às festas e de comprar muita roupa e muitas jóias, e de conduzir um Mercedes SLK e de dizer à mesa do café, para todos ouvirem, que esteve a lanchar em casa do Ministro das Finanças. Os homens procuram atracção física e oferecem estabilidade financeira e estatuto. No exagero caricatural, é o Pedro de Amanhã à mesma hora, um cirurgião que conduz um Porche e que vai casar com a Anabela mas que anda a comer uma stripper toda boa, é o empresário que seduz a sua secretária e lhe oferece um relógio de ouro, é o advogado que tem uma casa no Restelo e anda de mão dada com uma loira toda espampanante. Na verdade, as coisas parecem mesmo acontecer assim. Porém, nem todos os homens podem oferecer estabilidade financeira nem estatuto como nem todas as mulheres podem oferecer atractividade física e idade jovem. E nem por isso os homens e as mulheres deixam de se relacionar. Como referi há pouco, o facto de existir um padrão NÃO significa que TODAS as coisas aconteçam assim no absoluto. Por outro lado, quando fazemos referência a conceitos como «estabilidade financeira» e «estatuto» caímos inevitavelmente no exagero caricatural e estabelecemos como pontos cardiais o sinónimo «milionário» para «estabilidade financeira» e «doutor» para «estatuto». Trata-se, pois, de um viés do nosso ponto de vista constitucional. Sobretudo porque «estabilidade financeira» não significa necessariamente «milionário» nem «estatuto» significa necessariamente um qualquer título académico. Também há «estabilidade financeira» e «estatuto» e «atractividade física» e «idade jovem» na classe média e baixa, ou seja, os fenómenos de corte processam-se não somente interclasses mas também intraclasses. A história da gata borralheira que acaba por casar com o príncipe perfeito parece ser, nestas circunstâncias, inverosímil. Mas talvez nem tanto. Porque também aqui, lá está, é a jovem bonitinha e pobre que acaba por casar com o príncipe rico, tornando-se por isso princesa para sempre de um reino cheio de luxúria e de glória.

MAS, o pano de fundo está em transformação. O que significa que a história da gata borralheira está prestes a tornar-se MESMO inverosímil. Ainda segundo o autor do artigo em referência, «existem indicadores de uma mudança ao nível dos tradicionais papeis e expectativas de género em investigações mais recentes. Estes indicadores têm vindo a evidenciar que mulheres tendem a oferecer e a ser valorizadas pelas suas características de sucesso profissional e os homens pelas suas capacidades de expressão emocional.» Embora estas mudanças me pareçam mais ou menos evidentes, elas não deixam de ser interessantes como indicadores de uma profunda e silenciosa transformação das relações entre homens e mulheres. [1] Não é por isso muito arriscado dizer-se que estamos actualmente a viver uma fase de reajustamento das relações entre homens e mulheres (e, muito antes, de redefinição de géneros) aliás uma fase necessariamente caótica porque procura um novo equilíbrio relacional. As mulheres oferecem agora sucesso profissional. No exagero caricatural, a directora daquela faculdade privada, a jornalista do jornal das 8, a escritora de best-sellers, a taróloga que está em todo o lado e sabe tudo sobre todos, a professora universitária, a administradora de hospital, a ministra de qualquer coisa, a deputada pelo círculo eleitoral dacolá, etc. Já os homens são agora valorizados pelas suas capacidades de expressão emocional. No exagero caricatural, refere-se ao tal «homem sensível» que sente a dor do parto e que, por isso, chora. É também o tal «homem sensível» que compreende, que aceita, que acredita, que ama, que faz. É ainda o tal «homem sensível» que gosta de cães e gatos, sobretudo os dela, e que faz a depilação e usa cremes e vai ao solário. É o oposto do homem do talho e dos piropos e que cospe no chão. Só que, ninguém o assume, é também o homem esquizofrénico que balanceia entre o «sensível» e a «animalidade». Sim, porque todos estes estudos não se referem nunca à dualidade das vidas íntimas dos homens e das mulheres. Pois. Dos homens com estabilidade financeira e sensíveis casados com mulheres jovens e atraentes e bem sucedidas profissionalmente mas que à noite procuram os serviços das prostitutas e das amantes para fazerem aquilo que não são capazes de fazer com as suas mulheres. Ou então o contrário, mulheres jovens e atraentes e bem sucedidas profissionalmente casadas com homens sensíveis e com estabilidade financeira mas que consumam relações extraconjugais de cariz sexual com outros homens (sem qualquer tipo de juízo mas a verdade é que elas mentem melhor do que eles). Vejam, a título de exemplo, o caso de Theodor Busbeck, em Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares:

«Suspendendo a respiração por instantes Theodor logo de seguida enviava o ar quente em grande quantidade para as mãos. As ruas estavam desertas, ele ainda se encontrava a alguns quarteirões do centro, mas havia, já ali, naquela rua, um pressentimento, um cheiro a espírito humano, a movimento que transforma; certos sons longínquos surgiam agora cortando a redundância de nada acontecer. Algures, os seres humanos já se começavam a divertir.
O próximo século será o da seriedade ou então perderemos tudo o que conquistámos, pensava Theodor. Se continuarmos a gastar a nossa energia criativa em divertimentos inúteis, em prostitutas e anedotas fáceis, em breve surgirá uma outra espécie animal, mais circunspecta e inapta para o bom humor, que tomará conta, em pouco tempo, das nossas instituições principais. A tendência para contar anedotas pode fazer cair uma cidade, pensava Theodor com alguma ironia – uma espécie animal que se afaste do divertimento e do prazer terá grandes vantagens biológicas em relação aos seres humanos; e Theodor não deixava de olhar para o seu caso: médico importante, investigador muito admirado há três ou quatro anos atrás, que, naquele preciso momento, três e pouco da manhã, numa rua da cidade, caminha para o centro, absolutamente excitado, sem conseguir desligar-se da fotografia que há pouco vira, da mulher deitada na cama, com sangue no nariz e as pernas ostensivamente abertas, exibindo a vagina rodeada de pêlos públicos; avançando, pois, estava Theodor Busbeck, a passo firme, dirigindo-se para a absoluta inutilidade, para o absoluto tempo perdido, um tempo de excitação, sim, de pura excitação, de divertimento, e portanto de eficácia negativa, em suma: tempo de não-humanidade, tempo onde não se constrói. Se fôssemos só isto, o que eu sou neste momento, a caminhar apressado com o pénis duro, desejando encontrar rapidamente uma mulher, se fôssemos só isto seríamos agora os cães dos nossos cães.»

Em suma, toda esta questão dos anúncios pessoais é bastante complexa. Primeiro não sabemos ao certo se os padrões de procura de parceiro são resultado de um critério efectivo e individual ou se são apenas o produto de uma doutrina de «o melhor para os filhos e para as filhas». Ou seja, será que homens e mulheres procuram o que querem ou o que devem querer? E será que homens e mulheres têm sempre o que querem ou devem querer? [2] Por isso, mais do que os anúncios seria interessante incidir o foco de estudo nas respostas a esses anúncios bem como nas relações que se constituem nessa sequência. Segundo, é preciso ter em mente que as relações entre homens e mulheres estabelecem-se de múltiplas formas, independentemente do nosso conceito constitucionalizado de relação monogâmica ideal entre homens e mulheres. Essa coisa de o grande amor da nossa vida é, para o melhor e para o pior, uma propriedade dos Antigos. Hoje há, entre nós, a plena noção que as relações podem ou não funcionar e que há pelo menos a possibilidade de virmos a coleccionar vários grandes amores da nossa vida. Aliás, os anglo-saxónicos criaram o termo «monogamia seriada» precisamente como resposta a esse fenómeno. Por outro lado, nem tudo o que parece é. Porque, como nos mostra Theodor Busbeck, há homens e mulheres que podem iniciar uma relação com base nos padrões enunciados mas que depois bipolarizam a sua vontade e, em alguns casos, a sua própria personalidade, curvando-a para uma marginalidade que é onde afinal acabam por manifestar aquilo que realmente querem, ou seja, é precisamente nessa marginalidade em que homens e mulheres são os cães dos nossos cães.

É precisamente com base neste «ferrolho conceptual» que não nos permite distinguir entre aquilo que se quer e aquilo que se deve querer que eu julgo que é preciso alguma parcimónia de análise. É claro que há padrões mais ou menos dominantes mas a verdade é que ninguém é capaz de ver o que o outro vê. Pessoalmente defendo a tese de uma selecção sexual mais míope (e, portanto, menos mensurável) entre homens e mulheres resultante do conflito entre aquilo que a nossa vontade quer e aquilo que a nossa vontade deve querer. E é precisamente essa miopia que nos faz chegar à conclusão que, afinal, é o tudo que um homem ou uma mulher é ao mesmo tempo que nos atrai. E ser tudo ao mesmo tempo implica não somente «sucesso profissional» e «capacidade de expressão emocional» mas também a frustração dos dias maus e o cansaço das horas longas, etc. Aliás, é precisamente no et cetera que estão as coisas mais significativas. Pois. Esse tudo que ela é ao mesmo tempo. É o que respondo sempre quando me perguntam o que mais gosto nela. E, no entanto, não hesito em deixar-me consumir pela voracidade da rotulagem e da tipologia humana e dizer que me encanta o sorriso dela e a sua vontade de poder, sem medo do mais alto mar, sem medo do mais alto céu, mas ao mesmo tempo frágil na sua circunstância, negando-a, fugindo-lhe, resistindo-lhe. Por isso, tenham cuidado. Não se deixem levar pela ambiguidade da razão. É que ela nem sempre nos faz bem.

«Com estas psicologias metafísicas se consolam os humildes como eu.»
Bernardo Soares

Referência:
Nodim, N. (2007) A vida sexual dos anúncios pessoais: Uma revisão da literatura Análise Psicológica 3 (XXV): 351-361

[1] Sobre esta profunda e silenciosa transformação, por favor leiam, como de pão para a boca se tratasse, o romance No meio do nosso caminho de Clara Pinto Correia (Oficina do Livro). Para abrir o apetite, aqui fica um excerto: «Os maridos, Babalu, são a espécie mais incompreendida pela nossa sociedade, e a que merece menos compaixão. Estás-te a rir? Eh pá, poupa-me a discursos feministas, pela tua rica saúde. Isso já foi. Já era. Já não corresponde a nada do que realmente existe, pelo menos para a nossa geração. Agora os maridos ou não aguentam mais e se divorciam, como eu, ou andam transformados em baratas tontas a tentar fazer sorrir as senhoras, como eu andava dantes. Ou então, pronto, lá se conformam e se calam e, olha, quando elas os deixam vêem a bola na televisão à noite e vão à caça de dia, que sempre é melhor que partir a loiça toda.»

[2] Esta pergunta merece um breve post-script. Será que homens e mulheres têm sempre o que querem ou devem querer? A minha resposta é peremptória: NÃO. Primeiro porque é difícil para os homens e mulheres aperceberem-se realmente do que querem ou do que devem querer. Segundo, porque eu acho que o que se quer e o que se deve querer são duas faces da mesma moeda. São uma espécie de moléculas que se conjugam entre si para formar uma enzima que, pelo modelo do encaixe induzido, será activada pelo substrato. Ou seja, é claro que existem padrões e critérios mais ou menos explícitos que conformam a enzima mas no final de contas esperamos que um qualquer substrato (que não é, na verdade, um qualquer porque a indução do encaixe corresponde apenas a um conjunto limitado de combinações possíveis) nos active. O mistério está precisamente na conjugação das duas moléculas – o que se quer e o que se deve querer – e no mecanismo de activação por parte do substrato. Aliás, sobre isto os cientistas têm descoberto algumas coisas interessantes mas é matéria que deixarei para uma próxima oportunidade.

quinta-feira, julho 10, 2008

OS SEIOS DE LÍVIA AUGUSTA

Rodrigo era um homem vulgar. Aliás, demasiado vulgar para encetar uma luta corpo a corpo com aquilo que ele considerava ser uma contingência. Quando lhe diziam que precisava de se soltar mais e de deixar a timidez em casa, respondia com um ar aflito de criança culpada: Eu sou assim. E ao mesmo tempo encolhia os ombros como quem acrescentava: Mas eu sou assim mesmo. Para quem o via atravessar os corredores da Faculdade de Ciências, Rodrigo parecia ter um olhar inerte. Mas a verdade é que ninguém vê o que outro vê. E o ponto de vista de Rodrigo, aquele que era de facto posto em prática e se mostrava nos artigos que escrevia e nas palestras que dava, era um ponto de vista de quem estava constantemente a experimentar, como se estivesse de fora a ver o que sucede às coisas. Ele era um cientista. Daqueles a sério, que sabem que nada é tudo e que o mundo não passa de um acaso. Aliás, de um belo acaso. Nunca teve propriamente vontade de se sentar um dia e gritar ao mundo que ele, o mundo, foi descoberto. Para ele a luta continuava sempre. E isso dava-lhe ânimo. Acima de tudo porque achava que o mundo, o dos filmes e o dos livros, não passa de uma representação dos homens. Às vezes até bastante foleira. E, citando Newton, como sempre gostava de o fazer, costumava dizer que «o grande oceano da verdade continua por descobrir à minha frente». À nossa frente. À frente do mundo que é o que os homens precisam que ele pareça ser. Mas que não é. E costumava até dizer, com ar de gozo, que este mundo tinha a forma do grito de sobrevivência do homem do tempo, do homem primata, do homem térmita. Porque para ele, graças a Deus que Deus estava morto. É claro que toda esta concepção da vida não fazia propriamente de Rodrigo um homem muito popular na comunidade científica constitucionalizada no paradigma dos tempos modernos, que é como quem diz, dos tempos do politicamente correcto. Os seus colegas, que o achavam competente e interessante, não viam com bons olhos alguém que se recusava a ter vistas curtas em relação àquilo que eles consideravam ser tão original como aquela irrepetível sopa primitiva, isto é, um ensino superior em jeito de «serviço profissional obrigatório». Então nas reuniões do conselho pedagógico, aquilo era de bradar aos céus quando o fulano se punha a protestar com o facto de estarem todos a assistir passivamente ao enterro da ciência, da logociência, precisamente aquela que é admirável e que nos mostra os confins do universo, a evolução do homem, a origem da linguagem, o comportamento das plantas e dos animais, cheia de enigmas, principal motor do alargamento do horizonte de conhecimentos. Era trágico mas, pelos vistos, já ninguém se importava com isso. E ele não passava de um professor auxiliar, ainda por cima com um doutoramento em história das ciências feito em Harvard, daqueles que quase ninguém percebia para o que servia. Aliás, era frequente os colegas perguntarem-lhe, com ar de gozo, quando é que ele iria ser um biólogo a sério e descobrir qualquer coisa de útil, qualquer coisa que lhe valesse um artigo na Nature. Ele limitava-se a sorrir e a responder que não lhe interessava passar a vida a fazer qualquer coisa. E longe, suficientemente longe para não o ouvirem, dizia com toda a pujança: puta que os pariu. Não. Rodrigo não era um homem revoltado. Muito menos zangado com a vida. Tinha-se transformado naquilo que era. A sua vida estava nas suas mãos. E isso dava-lhe a força que ele precisava para se levantar todas as manhãs. Porque o mundo não tem a obrigação de o compensar pelos dias maus.

É claro que cada um de nós tem os seus cães selvagens a ladrar na cave. E Rodrigo também tinha. A sua relação com as mulheres era algo que esperava já há muito tempo por uma redobrada atenção da sua parte. Precisava disso como de pão para a boca. Sobretudo porque, às vezes, uma mulher, só por ser mulher consegue revelar o homem num homem. Naquele homem que não anda por aí apenas com o pénis duro à procura de uma vulva que o receba sem perguntas nem complicações. Mas sim que alucina e que vislumbra salas e quartos repletos de molduras a enquadrar aquilo que lhe parece ser uma felicidade para sempre. Uma vida cheia de glória. E que nos faça gritar por Nietzsche para lhe dizer que sim, que estamos prontos a amar a ideia de repetir eternamente a nossa vida. Era por isto que Rodrigo ambicionava. E imaginava. Mas, paradoxalmente, por isto fazia muito pouco. Lá fundo, os cães selvagens ladravam bem alto. E lembravam-lhe constantemente de Júlia, o último amor da vida de Rodrigo. E, talvez por isso, o que mais estragos fez. Rodrigo conheceu-a quando entrou para a faculdade. Eram os dois caloiros de biologia. Tinham na altura 18 anos e partilhavam um ponto de vista sobre a vida muito parecido. A sua relação polimerizou-se com a mesma vontade com que polimeriza um gel de electroforese. Aquilo funcionava. Mas funcionava mesmo. De tal forma que, quando terminam o curso, vão os dois em estágio para a África do Sul estudarem os elefantes do Sabi Sabi. É claro que acabaram por se apaixonar. E se, à partida, isso até parecia ser um bónus, depressa se revelou um embaraço. É o que acontece quando se ama mais o desejo do que o ser desejado. Rodrigo sabia que, para viver bem, era preciso desejar aquilo que é necessário e, depois, só depois, amar aquilo que é desejado. Mas quando se ama não se sabe nada. E despimos depressa as vestes que nos pesam e contamos em voz baixa todos os nossos desejos para no final suspirarmos o prazer de não estarmos sozinhos. Acontece que, para nos relacionarmos plenamente com o outro, precisamos primeiro de nos relacionarmos connosco próprios. Só quando se consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, se consegue voltar para outra pessoa com amor. Júlia e Rodrigo usavam-se um ao outro como escudo contra o isolamento. E quando se descobre isso, tudo perde sentido. Precisamente aquele tudo que era suposto ser para sempre. Descobriram isso imediatamente a seguir a uma vontade enorme de fornicarem, de tal forma que os obrigaram a parar o Land Rover e a correr com o pisteiro o mais depressa possível, ao mesmo tempo que lá longe passava uma manada de rinocerontes brancos (um dos animais mais emblemáticos de Sabi Sabi). Às vezes o sexo tem destas coisas. Logo a seguir torna-nos mais lúcidos. Como se os fluidos levassem consigo a miopia e o encantamento e a «doença» do desejo. A seguir ao sexo vemos mais claro. E sabemos logo se é com aquela pessoa que queremos estar na próxima vez. Pelo menos foi assim que se passou com Júlia e Rodrigo. Mesmo assim ainda suportaram um dia longo de trabalho, em silêncio, de um lado para o outro à procura dos trombudos. Rodrigo tinha na altura 24 anos. Sabia que isto iria fazer estragos. Os elefantes nunca esquecem. E ele também não.

(continua)
PORQUE UM CEGO TAMBÉM FALA DAS CORES

Há coisas que a gente nunca seria capaz de dizer se estivesse em jejum. É precisamente por essa razão que George fazia questão que todas as conversas sérias apenas acontecessem no final do jantar, quando já todos tivessem bebido o suficiente para que as palavras fossem, naquele momento, o pensamento. Puro na sua essência. Assim, sem mais nem menos. Desprovido de qualquer filtro moral. Sem medo de nada. Como se não houvesse amanhã. George sabia também que dizer coisas que nunca se seria capaz de dizer se estivesse em jejum é também um risco. Mas um risco que valia a pena correr. Foi assim, então, embutido neste espírito e neste propósito, que convidou a Rute para ir lá a casa jantar. Mais uma vez. O convite foi feito no dia anterior, à porta da cantina. Quer dizer, não foi bem um convite, daqueles em que se interroga o convidado. Não. George foi menos assertivo e demasiado afirmativo.
Olha, amanhã há jantar em minha casa, disse George.
E pronto. Estava o convite feito e aceite, tudo ao mesmo tempo, num piscar de olhos, sem sequer precisar da concordância da convidada. Rute não gostava nada disto. Achava que entre amigos devia haver uma certa cerimónia. Não daquelas insuportáveis que metem faqueiros e copos de cristal e guardanapos de pano e coisas assim. Mas antes uma cerimónia que a fizesse sentir especial, já que se considerava uma amiga especial. Apesar de tudo, apesar da irritação que se tornou crónica com o tempo, nunca era capaz de fazer um reparo sequer.
Ele é assim, dizia Rute, totalmente resignada.
O dia do jantar chegou. Eram 21h00 quando a Rute tocou à campainha. Pontual como sempre. George abriu-lhe a porta e deu-lhe um beijo apressado, daqueles em que se encosta a cara e beija-se o ar. Não precisou de a mandar entrar. Ela entrou de rompante, despiu o casaco e sentou-se no sofá da sala. Aliás, um sofá pelo qual tinha grande admiração e onde se sentia confortável e segura. Não é que fosse bonitinho até porque não combinava nada com as cortinas e muito menos com a mobília. Mas que era confortável, lá isso era. Precisamente na altura em que o Jeremias dá o seu mio de existência, Rute descruza elegantemente as pernas, ao mesmo tempo que se põe a jeito para o receber no seu regaço. Jeremias era um gato comum que George tinha encontrado debaixo de um carro numa vez que tinha ido a uma feira do oculto na Fundição de Oeiras. Como era preto, achou que aquilo podia querer dizer alguma coisa até porque, mesmo não acreditando, a gente gosta sempre de acreditar. O bichano não estava castrado, apesar dos pedidos insistentes de Rute para que George o fizesse o mais rapidamente possível. Ele recusava-se determinantemente e chegava mesmo a dizer que era uma mutilação e uma crueldade essa coisa de assexualizar animais cujo primeiro instinto é precisamente sexual. Ela dizia precisamente o contrário, que o animal iria ser mais feliz castrado pois de que lhe valia ter instinto sexual se era obrigado a viver dentro de quatro paredes? Havia também a Selma, uma gata comum que tinha sido de um vizinho que entretanto morrera. Mais reservada, lá aparecia ao final de algum tempo a roçar-se nas paredes e a miar cantigas de amigo. Era exageradamente gorda. Ficou assim desde que George a mandou castrar.
O jantar está pronto, anunciou George lá de dentro da cozinha.
Não era propriamente um manjar dos deuses. Nem ele tinha muita paciência para a arte do empratar. Mesmo assim, hoje tinha-se esmerado de tal forma que deixou escapar um uivo de satisfação ao mesmo tempo que contemplou a mesa posta. Rute sentou-se no banco que continuava com um dos parafusos por apertar e quase se estatelou no chão. Com uma serenidade aparente, troca rapidamente o banco pela cadeira e pega de imediato no copo cheio de vinho. Dá um longo golo. Como sempre, os jantares de George e Rute começam apenas com o barulho da mastigação. Chegam mesmo a fazer, involuntariamente, uma espécie de desgarrada de sons vindos dos dentes a moerem pedaços de tosta, do queijo a empapar-se de saliva, do pão a ser deglutido. Uma espécie de festival de barulhinhos viscosos. O vinho, esse, um reserva tinto de 2001, lá lhes ia escorrendo pelas gargantas abaixo. George tem um truque. Assim que as tremuras das suas mãos abrandassem, então era porque já tinha bebido o suficiente para ser capaz de falar. O tema, esse, como sempre, era o amor.

(continua)

sexta-feira, julho 04, 2008

O MUNDO A ACONTECER POR AÍ
Os ratos comem os restos do mundo
E perseguem-no com perícia
Aguardando o momento em que o mundo
Esse mundo
E aquele mundo
E ainda o outro
Deixa cair no chão os restos
Os restos de coisa nenhuma
Porque o mundo
Mesmo perseguido
Não se importa com o que deita para o chão.

Os ratos comem o mundo
E engolem-no com prazer
Porque o mundo já foi digerido
Pela vaidade dos homens e das mulheres
Que não perceberam o enigma
Porque o confundiram com o mistério.

Os ratos comem o mundo e os restos do mundo.
Dentro deles estão restos de nós.

Os ratos comem o mundo e os restos do mundo.
Dentro deles estão restos de memória.

O mundo é um resto
E como o próprio mundo o define:
Tudo o que é resto é lixo.

quinta-feira, junho 19, 2008

GRANDES NOTÍCIAS POR AÍ

«Homem contactará extraterrestres dentro de 100 anos
Um perito norte-americano defende que o Homem contactará a vida extra-terrestre num prazo de cem anos face aos avanços tecnológicos.»

- Diário Digital, 13 de Junho de 2008

O melhor é começar a pensar no que lhes vão dizer. E como daqui a 100 anos eu já serei pó e cinza, por favor transmitam-lhes este recado da minha parte: Senhoras e senhores extra-terrestres (e afins na hipótese de haver mais do que dois géneros), eu vivi entre os finais do século XX e os princípios do século XXI neste planeta Terra que agora vos contacta. Hoje sou (usar aqui o verbo ser é, claro, uma piada) omnipresente, molecularmente falando. Sei apenas que uma boa dúzia de milhões de átomos meus estão agora naquele jacarandá daquela rua que vai para a estação de Oeiras. E até estou contente. Molecularmente falando, claro. Os tipos que vos contactam são muito diferentes daqueles do meu tempo. E olhem que eram tempos difíceis! Mas estes tipos são mesmo muito diferentes. Meio robots, meio humanos. Coitados, mataram a imaginação e agora vivem como débeis numa sociedade feita de máquinas. É provável que se digam muito inteligentes, muito modernos, muito superiores, e tal e tal. Há coisas que nunca mudam! Mas os pobres coitados, que agora fazem sexo com máquinas e bonecas e bonecos de silicone que no meu tempo estavam ainda em protótipo, vivem o mundo dos possíveis. Eh pá, se tiverem tempo provem um tinto do Douro, o Gouvyas Vinhas Velhas. É de chorar por mais. Se é que vocês choram! Se é que vocês têm olhos! Malta verde, vi num filme dos meus tempos que vocês faziam o amor tocando os dedos. É verdade? Uau! Que sofisticados! Sabem, no meu tempo o amor foi duas coisas: tudo e nada. Quando era tudo, os homens e as mulheres lutavam uns pelos outros e liam Amor em tempos de cólera com clarividência porque aquilo fazia-lhes sentido. Quando passou a ser nada, os homens e as mulheres simplesmente desistiram do amor para passarem a estar mais preocupados com a ideologia da individualidade. Pois. Uma coisa típica da pós-modernidade. E depois entraram numa espécie de guerra. Sim, magoando-se uns aos outros, e bebendo uns para esquecer outros, e enganando. No dia em que escrevo isto Portugal vai jogar com a Alemanha. Podiam ser uns porreiros e levar uma bandeirinha nossa na vossa nave. Não gozem ó cabeças de lima. Por aqui o futebol é uma coisa muito, mas mesmo muito séria. E pronto. Um grande abraço aqui do Ricardo e, olhem, na falta de melhores palavras, Paz e Amor para vocês todos e cumprimentos meus ao vosso mundo. Atentamente, eu.
GRANDES VERDADES POR AÍ

«E o mais curioso é quando entendemos tudo desde o início mas achamos que ainda não é o timing certo, que ainda precisamos de mais uma prova ou outra de que isto não é assim : mais um jantar, mais um cinema, mais umas férias- que eu depois quando vier decido -, mais uma carta, um telefonema, uma mensagem cautelosa- que eu não tenho a certeza-, mais um dia a seguir a outro, mais uma semana em que não nos vemos, mais uma semana que nos vemos sem nos ver, até ao dia em que percebemos que perdemos todo o timing que até aí nos unia. »
- Fernando Alvim, Metro , 12 de Junho de 2008.

(citado no blogue Prosimetron do amigo Luís Barata)

quarta-feira, junho 18, 2008

GRANDES VERDADES POR AÍ

«Amar sem ser amado
é como limpar o cu sem ter cagado»

(numa casa-de-banho do CCB)

sexta-feira, junho 13, 2008

MAIS UM SINAL DOS TEMPOS

Como todos sabem o sexo vende-se. E, ao que parece, é barato e vale tudo. Há dias dediquei-me a ler os classificados do 24 Horas. Como também todos sabem, a oferta responde à procura. O que significa que ao ler os anúncios e o que eles oferecem, ficamos a conhecer, de alguma forma, aquilo que se procura. Não me espantei.

«Oral natural»
«Oral natural até fim»
«Dificuldade»
«2 Oportunidade»
«30 completo»
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Sublinho a importância dada ao sexo oral sem preservativo (uma constante em quase todos os anúncios) e, em alguns casos, a oferta de sexo oral sem preservativo até à ejaculação, e o sexo anal. Sublinho também a importância dada à oprtunidade de ménage à trois, e o «30 completo» que me parece querer dizer 30 euros o "serviço" completo. Finalmente, sublinho a «dificuldade» que julgo querer dizer «apertadinha». Então o que quer tudo isto dizer? Bom, primeiro que este tipo de sexo que se vende está afectado por um comportamento de risco. Há também uma tendência, talvez até uma moda ou um fetiche colectivo, para o sexo oral e anal. Mas o que leva homens casados ou comprometidos a procurarem este tipo de sexo? Porque não o têm em casa? Porque as suas mulheres ou namoradas não aceitam praticarem sexo oral e anal? Porque com as suas mulheres ou namoradas não vale tudo? Uma coisa é certa. Eles sabem que com estas mulheres vale tudo. Eles sabem que com estas mulheres podem fazer tudo. Sem culpa. Sem compromisso. Sem afecto. Apenas sexo no limite dos possíveis da imaginação. Apenas sexo para alimentar as pulsões sexuais mais estrambólicas porque mais reprimidas. Apenas sexo, daquele sujo e pornográfico, livre de moratórias, livre de pré-conceitos, simplesmente livre. Aliás, suficientemente livre para dar espaço à exacerbação do animal humano feito de sexo e de agressividade. Sim, o sexo vende-se. É barato e vale tudo.

quinta-feira, junho 12, 2008

O EQUÍVOCO (II)

Às vezes lamento estar sozinho.
Mas o equívoco é meu.
Um cão faz-me companhia.
Uma fiel companhia que deveria reconfortar-me.
Deixo de lamentar estar sozinho, porque não estou, para passar a lamentar estar acompanhado por um cão.
O EQUÍVOCO (I)

Às vezes lamento que o mundo não avança.
Mas o equívoco é meu.
Porque, na verdade, o mundo avança.
A direcção que ele toma é que eu lamento.
NOTAS AVULSAS SOB EFEITO DO CIPRALEX

Oiço neste momento Kenny Rogers a cantar Lady. E recordo os anos 80 em todo o seu esplendor. Olho para a mesa e vejo papeis espalhados com esquemas do ciclo dos ácidos tricarbolíxicos, e do ciclo da ureia, e do ciclo de Cori, e reacções, muitas reações, demasiadas reacções mostrando a biossíntese e a degradação dos aminoácidos, das proteínas, dos glúcidos e dos lípidos, sem nunca esquecer as enzimas e as co-enzimas. Do lado esquerdo está uma caixa de Cipralex que não me deixa esquecer que não estou nos meus melhores dias. A televisão, transformada em lixo animado, invade a sala com notícias do mundo podre, e programas inúteis, e séries sobre a morte. Áliás, a morte tornou-se agora entretenimento. A futebolomania, como não podia deixar de ser, lá vai pulsando. Lá fora os carros passam com as bandeiras hirtas, os casais passeiam ambos com uma t-shirt da Selecção, o cão fareja com o lenço ao pescoço. Discute-se no café se o Scolari fez bem em ter anunciado que se vai embora antes de ter terminado o Euro 2008. Os Santos já chegaram. Os noivos de Santo António já casaram e vão agora ser felizes para sempre. As marchas ainda marcham na avenida. Os bairros estão apinhados de gente entretida a comer e a beber. Suspiro de cansaço. Quer dizer. Suspiro o cansaço. Não sai. Está entranhado. Parece que as bombas já têm combustível. E os supermercados comida. O Primeiro-ministro, no entanto, faz um auto-elogio ao seu governo pela forma exemplar como resolveu este problema. As pessoas zangam-se. As fés dissolvem-se. Os vivos morrem. A luz, a demasiada luz não nos deixa ver o céu. Falto a um jantar. Hoje não me apetece. Suspiro outra vez o cansaço. Ele não sai. Ele não quer sair. Fumo um cigarro à janela. A brisa é agradável. Mas só por momentos. A náusea regressa. A agonia também. Deito-me no sofá em posição fetal. Isto já vai passar. De olhos fechados penso numa dezena de pessoas ao mesmo tempo que passo em revista os enzimas envolvidos no ciclo dos ácidos tricarboxílicos. Penso com quem gostava de estar. Penso em quem gostava que aqui estivesse. Penso naquela que me deixou. Penso naquela que foi deixada. Penso naquela que já não vejo há muito tempo. Penso no meu pai. Apercebo-me de como me sinto órfão desde que ele morreu. Choro. Já estou mais bem disposto. A Quadratura do Círculo começou há pouco. Concordo com o que diz José Pacheco Pereira. Sempre concordei. O Verão parece que chegou mas parece que não fica. Amanhã é feriado. Tenho fome. Leio o meu post anterior em que digo que "Releio". Lembrei-me do que Fernando Pessoa escreveu através de um dos seus heterónimos, Bernardo Soares, num dos meus livros preferidos, O Livro do Desassossego:

«(...) Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada...»

Já não compreendo mesmo nada...

terça-feira, junho 10, 2008

UM SINAL DOS TEMPOS

Releio-me.

Há momentos da nossa vida em que sentimos uma necessidade miserável e incompreendida de começar do princípio. São momentos em que, desfeitos pela armadilha do amor, nos sentimos cansados, exaustos e tristes. E vencidos. São momentos que nos fazem olhar o espelho e perceber que o medo não nos pode impedir de tentar. São momentos que, como ao poeta, nos trazem à memória uma frase batida. Hoje tem de ser o primeiro dia do resto da nossa vida.
O nosso princípio teve um tempo e um lugar. E teve sobretudo uma história. Gabriel García Marquez escreveu que a vida não é a que cada um viveu mas a que recorda e a forma como recorda para contá-la. Gosto desta frase. Faz-me sentido. Mas do outro lado do espelho a história é outra. É uma história de um amor não cumprido (para mim) ou de um amor inviável (para ti). É também uma história de uma paixão surda que não quis ouvir o que tínhamos para dizer um ao outro.
Tudo começou como começam tantas outras paixões. Eu não estava à tua espera e tu apareceste. Tu não me procuravas e encontraste-me. Os teus olhos azuis e o teu cabelo ondulado fizeram com que tudo nunca mais fosse o mesmo. E tudo nunca mais foi o mesmo outra vez quando partiste e me deixaste sozinho no meu mundo, que dizes ser cinzento, a desmamar uma paixão que se transformou em amor, daqueles amores que os outros acham que não existem nunca e que fingimos o que não sentimos. Sonhei casar contigo, sonhei ter filhos contigo, sonhei sermos os dois felizes para sempre.
Mas tu apressaste-te a desfazer todos os meus sonhos e todas as minhas ilusões. Da mesma forma que eu me tinha apressado a fazê-los. Sempre admirei a tua determinação, mesmo sabendo que sofres com isso, porque é uma determinação que luta nas entranhas entre o que se gosta e o que se deve gostar. Sem nos apercebermos que não existem príncipes encantados. Pois, como escreveu Clara Pinto Correia, ficaram todos entretidos a foder a Bela Adormecida. Mas como gostamos sempre de acreditar, e talvez seja esse o nosso programa de vida, vamos caminhando e lutando e ferindo sem querer o nosso coração.
Regressei ao Algarve. Ao lugar onde o meu amor por ti nasceu. Ao lugar onde os meus sonhos por ti e contigo ganharam forma e sentido. Fui lá despedir-me do ano velho. Regressei a esse lugar sem ti e com os meus sonhos desfeitos. Apenas imagens projectadas no vazio me aconchegavam a alma. Imagens das minhas mãos a percorrerem o teu corpo. Imagens dos nossos lábios a envolverem-se. Imagens das nossas lutas interiores entre o desejo e o medo, com o desejo a vencer sempre que nos tocávamos. Imagens dos jogos de sedução que gostávamos de jogar. E de ganhar. Imagens de duas pessoas sonhando uma vida à pressa com pressa de a viver. Imagens do teu cheiro que ficou marcado para sempre na cama onde durante tantas noites nos descobrimos a cada impulso de paixão. E que voltei a sentir.
Deitado naquela cama, esperei por ti. Mais uma vez. Fechei os olhos e apareceste. Juntos, nos meus sonhos, fomos felizes pela última vez. Tal como os salmões que regressam ao lugar do rio onde nasceram para desovar e morrer, os meus sonhos contigo ali nasceram. E ali foram morrer. Tal como os salmões, o nosso encontro – que foi muito mais que um mero encontro de caminhos – acabou por desovar boas recordações. Tal como os salmões, os meus sonhos morreram onde nasceram. E começo agora do princípio. Outra vez. E de cada vez de uma forma diferente. Porque mais uma vez hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.


Este conto intitula-se «Como os salmões, os meus sonhos» e foi publicado numa colectânea de Histórias Devidas (Edições ASA, 2006). Recordo-me muito bem do que me levou a escrevê-lo. E melhor ainda do que ele conta. Acontece que sempre o achei vulgar. Uma espécie de cliché das histórias de amor. Mas hoje, ao relê-lo a esta distância, vejo uma coisa diferente. Hoje, este conto surge-me como um sinal dos tempos. Um tempo de decadência. E, por conseguinte, também de decadência das relações entre homens e mulheres, e que resulta num total esvaziamento do estar-com. Homens e mulheres surgem agora como dois vegetais, desencontrados, sem qualquer possibilidade de vínculo face-a-face, apenas movidos pelo combustível da ideologia do individualismo. Homens e mulheres relacionam-se utilitariamente. Banalizam o amor e o compromisso. Não procuram o afecto. Apenas o prazer imediato. Privilegiam mais o relacionamento sexual do que o envolvimento emocional e afectivo. Tudo isto sem sequer se aperceberem que uma sexualidade dissociada de afecto só pode resultar numa vivência da intimidade vazia e frustrante. E, talvez por tudo isto, estão sempre a começar do princípio. Aliás, nunca saem do princípio. Sem perceberem porquê. Nestes tempos estamos assim. Salmões desesperados porque nos esquecemos onde fica o nosso lugar do rio. Precisamente esse lugar onde homens e mulheres ainda lutavam uns pelos outros. Uns pelos outros. Lembram-se?