OS SEIOS DE LÍVIA AUGUSTA
Rodrigo era um homem vulgar. Aliás, demasiado vulgar para encetar uma luta corpo a corpo com aquilo que ele considerava ser uma contingência. Quando lhe diziam que precisava de se soltar mais e de deixar a timidez em casa, respondia com um ar aflito de criança culpada: Eu sou assim. E ao mesmo tempo encolhia os ombros como quem acrescentava: Mas eu sou assim mesmo. Para quem o via atravessar os corredores da Faculdade de Ciências, Rodrigo parecia ter um olhar inerte. Mas a verdade é que ninguém vê o que outro vê. E o ponto de vista de Rodrigo, aquele que era de facto posto em prática e se mostrava nos artigos que escrevia e nas palestras que dava, era um ponto de vista de quem estava constantemente a experimentar, como se estivesse de fora a ver o que sucede às coisas. Ele era um cientista. Daqueles a sério, que sabem que nada é tudo e que o mundo não passa de um acaso. Aliás, de um belo acaso. Nunca teve propriamente vontade de se sentar um dia e gritar ao mundo que ele, o mundo, foi descoberto. Para ele a luta continuava sempre. E isso dava-lhe ânimo. Acima de tudo porque achava que o mundo, o dos filmes e o dos livros, não passa de uma representação dos homens. Às vezes até bastante foleira. E, citando Newton, como sempre gostava de o fazer, costumava dizer que «o grande oceano da verdade continua por descobrir à minha frente». À nossa frente. À frente do mundo que é o que os homens precisam que ele pareça ser. Mas que não é. E costumava até dizer, com ar de gozo, que este mundo tinha a forma do grito de sobrevivência do homem do tempo, do homem primata, do homem térmita. Porque para ele, graças a Deus que Deus estava morto. É claro que toda esta concepção da vida não fazia propriamente de Rodrigo um homem muito popular na comunidade científica constitucionalizada no paradigma dos tempos modernos, que é como quem diz, dos tempos do politicamente correcto. Os seus colegas, que o achavam competente e interessante, não viam com bons olhos alguém que se recusava a ter vistas curtas em relação àquilo que eles consideravam ser tão original como aquela irrepetível sopa primitiva, isto é, um ensino superior em jeito de «serviço profissional obrigatório». Então nas reuniões do conselho pedagógico, aquilo era de bradar aos céus quando o fulano se punha a protestar com o facto de estarem todos a assistir passivamente ao enterro da ciência, da logociência, precisamente aquela que é admirável e que nos mostra os confins do universo, a evolução do homem, a origem da linguagem, o comportamento das plantas e dos animais, cheia de enigmas, principal motor do alargamento do horizonte de conhecimentos. Era trágico mas, pelos vistos, já ninguém se importava com isso. E ele não passava de um professor auxiliar, ainda por cima com um doutoramento em história das ciências feito em Harvard, daqueles que quase ninguém percebia para o que servia. Aliás, era frequente os colegas perguntarem-lhe, com ar de gozo, quando é que ele iria ser um biólogo a sério e descobrir qualquer coisa de útil, qualquer coisa que lhe valesse um artigo na Nature. Ele limitava-se a sorrir e a responder que não lhe interessava passar a vida a fazer qualquer coisa. E longe, suficientemente longe para não o ouvirem, dizia com toda a pujança: puta que os pariu. Não. Rodrigo não era um homem revoltado. Muito menos zangado com a vida. Tinha-se transformado naquilo que era. A sua vida estava nas suas mãos. E isso dava-lhe a força que ele precisava para se levantar todas as manhãs. Porque o mundo não tem a obrigação de o compensar pelos dias maus.
É claro que cada um de nós tem os seus cães selvagens a ladrar na cave. E Rodrigo também tinha. A sua relação com as mulheres era algo que esperava já há muito tempo por uma redobrada atenção da sua parte. Precisava disso como de pão para a boca. Sobretudo porque, às vezes, uma mulher, só por ser mulher consegue revelar o homem num homem. Naquele homem que não anda por aí apenas com o pénis duro à procura de uma vulva que o receba sem perguntas nem complicações. Mas sim que alucina e que vislumbra salas e quartos repletos de molduras a enquadrar aquilo que lhe parece ser uma felicidade para sempre. Uma vida cheia de glória. E que nos faça gritar por Nietzsche para lhe dizer que sim, que estamos prontos a amar a ideia de repetir eternamente a nossa vida. Era por isto que Rodrigo ambicionava. E imaginava. Mas, paradoxalmente, por isto fazia muito pouco. Lá fundo, os cães selvagens ladravam bem alto. E lembravam-lhe constantemente de Júlia, o último amor da vida de Rodrigo. E, talvez por isso, o que mais estragos fez. Rodrigo conheceu-a quando entrou para a faculdade. Eram os dois caloiros de biologia. Tinham na altura 18 anos e partilhavam um ponto de vista sobre a vida muito parecido. A sua relação polimerizou-se com a mesma vontade com que polimeriza um gel de electroforese. Aquilo funcionava. Mas funcionava mesmo. De tal forma que, quando terminam o curso, vão os dois em estágio para a África do Sul estudarem os elefantes do Sabi Sabi. É claro que acabaram por se apaixonar. E se, à partida, isso até parecia ser um bónus, depressa se revelou um embaraço. É o que acontece quando se ama mais o desejo do que o ser desejado. Rodrigo sabia que, para viver bem, era preciso desejar aquilo que é necessário e, depois, só depois, amar aquilo que é desejado. Mas quando se ama não se sabe nada. E despimos depressa as vestes que nos pesam e contamos em voz baixa todos os nossos desejos para no final suspirarmos o prazer de não estarmos sozinhos. Acontece que, para nos relacionarmos plenamente com o outro, precisamos primeiro de nos relacionarmos connosco próprios. Só quando se consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, se consegue voltar para outra pessoa com amor. Júlia e Rodrigo usavam-se um ao outro como escudo contra o isolamento. E quando se descobre isso, tudo perde sentido. Precisamente aquele tudo que era suposto ser para sempre. Descobriram isso imediatamente a seguir a uma vontade enorme de fornicarem, de tal forma que os obrigaram a parar o Land Rover e a correr com o pisteiro o mais depressa possível, ao mesmo tempo que lá longe passava uma manada de rinocerontes brancos (um dos animais mais emblemáticos de Sabi Sabi). Às vezes o sexo tem destas coisas. Logo a seguir torna-nos mais lúcidos. Como se os fluidos levassem consigo a miopia e o encantamento e a «doença» do desejo. A seguir ao sexo vemos mais claro. E sabemos logo se é com aquela pessoa que queremos estar na próxima vez. Pelo menos foi assim que se passou com Júlia e Rodrigo. Mesmo assim ainda suportaram um dia longo de trabalho, em silêncio, de um lado para o outro à procura dos trombudos. Rodrigo tinha na altura 24 anos. Sabia que isto iria fazer estragos. Os elefantes nunca esquecem. E ele também não.
(continua)
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quinta-feira, julho 10, 2008
PORQUE UM CEGO TAMBÉM FALA DAS CORES
Há coisas que a gente nunca seria capaz de dizer se estivesse em jejum. É precisamente por essa razão que George fazia questão que todas as conversas sérias apenas acontecessem no final do jantar, quando já todos tivessem bebido o suficiente para que as palavras fossem, naquele momento, o pensamento. Puro na sua essência. Assim, sem mais nem menos. Desprovido de qualquer filtro moral. Sem medo de nada. Como se não houvesse amanhã. George sabia também que dizer coisas que nunca se seria capaz de dizer se estivesse em jejum é também um risco. Mas um risco que valia a pena correr. Foi assim, então, embutido neste espírito e neste propósito, que convidou a Rute para ir lá a casa jantar. Mais uma vez. O convite foi feito no dia anterior, à porta da cantina. Quer dizer, não foi bem um convite, daqueles em que se interroga o convidado. Não. George foi menos assertivo e demasiado afirmativo.
Olha, amanhã há jantar em minha casa, disse George.
E pronto. Estava o convite feito e aceite, tudo ao mesmo tempo, num piscar de olhos, sem sequer precisar da concordância da convidada. Rute não gostava nada disto. Achava que entre amigos devia haver uma certa cerimónia. Não daquelas insuportáveis que metem faqueiros e copos de cristal e guardanapos de pano e coisas assim. Mas antes uma cerimónia que a fizesse sentir especial, já que se considerava uma amiga especial. Apesar de tudo, apesar da irritação que se tornou crónica com o tempo, nunca era capaz de fazer um reparo sequer.
Ele é assim, dizia Rute, totalmente resignada.
O dia do jantar chegou. Eram 21h00 quando a Rute tocou à campainha. Pontual como sempre. George abriu-lhe a porta e deu-lhe um beijo apressado, daqueles em que se encosta a cara e beija-se o ar. Não precisou de a mandar entrar. Ela entrou de rompante, despiu o casaco e sentou-se no sofá da sala. Aliás, um sofá pelo qual tinha grande admiração e onde se sentia confortável e segura. Não é que fosse bonitinho até porque não combinava nada com as cortinas e muito menos com a mobília. Mas que era confortável, lá isso era. Precisamente na altura em que o Jeremias dá o seu mio de existência, Rute descruza elegantemente as pernas, ao mesmo tempo que se põe a jeito para o receber no seu regaço. Jeremias era um gato comum que George tinha encontrado debaixo de um carro numa vez que tinha ido a uma feira do oculto na Fundição de Oeiras. Como era preto, achou que aquilo podia querer dizer alguma coisa até porque, mesmo não acreditando, a gente gosta sempre de acreditar. O bichano não estava castrado, apesar dos pedidos insistentes de Rute para que George o fizesse o mais rapidamente possível. Ele recusava-se determinantemente e chegava mesmo a dizer que era uma mutilação e uma crueldade essa coisa de assexualizar animais cujo primeiro instinto é precisamente sexual. Ela dizia precisamente o contrário, que o animal iria ser mais feliz castrado pois de que lhe valia ter instinto sexual se era obrigado a viver dentro de quatro paredes? Havia também a Selma, uma gata comum que tinha sido de um vizinho que entretanto morrera. Mais reservada, lá aparecia ao final de algum tempo a roçar-se nas paredes e a miar cantigas de amigo. Era exageradamente gorda. Ficou assim desde que George a mandou castrar.
O jantar está pronto, anunciou George lá de dentro da cozinha.
Não era propriamente um manjar dos deuses. Nem ele tinha muita paciência para a arte do empratar. Mesmo assim, hoje tinha-se esmerado de tal forma que deixou escapar um uivo de satisfação ao mesmo tempo que contemplou a mesa posta. Rute sentou-se no banco que continuava com um dos parafusos por apertar e quase se estatelou no chão. Com uma serenidade aparente, troca rapidamente o banco pela cadeira e pega de imediato no copo cheio de vinho. Dá um longo golo. Como sempre, os jantares de George e Rute começam apenas com o barulho da mastigação. Chegam mesmo a fazer, involuntariamente, uma espécie de desgarrada de sons vindos dos dentes a moerem pedaços de tosta, do queijo a empapar-se de saliva, do pão a ser deglutido. Uma espécie de festival de barulhinhos viscosos. O vinho, esse, um reserva tinto de 2001, lá lhes ia escorrendo pelas gargantas abaixo. George tem um truque. Assim que as tremuras das suas mãos abrandassem, então era porque já tinha bebido o suficiente para ser capaz de falar. O tema, esse, como sempre, era o amor.
(continua)
Há coisas que a gente nunca seria capaz de dizer se estivesse em jejum. É precisamente por essa razão que George fazia questão que todas as conversas sérias apenas acontecessem no final do jantar, quando já todos tivessem bebido o suficiente para que as palavras fossem, naquele momento, o pensamento. Puro na sua essência. Assim, sem mais nem menos. Desprovido de qualquer filtro moral. Sem medo de nada. Como se não houvesse amanhã. George sabia também que dizer coisas que nunca se seria capaz de dizer se estivesse em jejum é também um risco. Mas um risco que valia a pena correr. Foi assim, então, embutido neste espírito e neste propósito, que convidou a Rute para ir lá a casa jantar. Mais uma vez. O convite foi feito no dia anterior, à porta da cantina. Quer dizer, não foi bem um convite, daqueles em que se interroga o convidado. Não. George foi menos assertivo e demasiado afirmativo.
Olha, amanhã há jantar em minha casa, disse George.
E pronto. Estava o convite feito e aceite, tudo ao mesmo tempo, num piscar de olhos, sem sequer precisar da concordância da convidada. Rute não gostava nada disto. Achava que entre amigos devia haver uma certa cerimónia. Não daquelas insuportáveis que metem faqueiros e copos de cristal e guardanapos de pano e coisas assim. Mas antes uma cerimónia que a fizesse sentir especial, já que se considerava uma amiga especial. Apesar de tudo, apesar da irritação que se tornou crónica com o tempo, nunca era capaz de fazer um reparo sequer.
Ele é assim, dizia Rute, totalmente resignada.
O dia do jantar chegou. Eram 21h00 quando a Rute tocou à campainha. Pontual como sempre. George abriu-lhe a porta e deu-lhe um beijo apressado, daqueles em que se encosta a cara e beija-se o ar. Não precisou de a mandar entrar. Ela entrou de rompante, despiu o casaco e sentou-se no sofá da sala. Aliás, um sofá pelo qual tinha grande admiração e onde se sentia confortável e segura. Não é que fosse bonitinho até porque não combinava nada com as cortinas e muito menos com a mobília. Mas que era confortável, lá isso era. Precisamente na altura em que o Jeremias dá o seu mio de existência, Rute descruza elegantemente as pernas, ao mesmo tempo que se põe a jeito para o receber no seu regaço. Jeremias era um gato comum que George tinha encontrado debaixo de um carro numa vez que tinha ido a uma feira do oculto na Fundição de Oeiras. Como era preto, achou que aquilo podia querer dizer alguma coisa até porque, mesmo não acreditando, a gente gosta sempre de acreditar. O bichano não estava castrado, apesar dos pedidos insistentes de Rute para que George o fizesse o mais rapidamente possível. Ele recusava-se determinantemente e chegava mesmo a dizer que era uma mutilação e uma crueldade essa coisa de assexualizar animais cujo primeiro instinto é precisamente sexual. Ela dizia precisamente o contrário, que o animal iria ser mais feliz castrado pois de que lhe valia ter instinto sexual se era obrigado a viver dentro de quatro paredes? Havia também a Selma, uma gata comum que tinha sido de um vizinho que entretanto morrera. Mais reservada, lá aparecia ao final de algum tempo a roçar-se nas paredes e a miar cantigas de amigo. Era exageradamente gorda. Ficou assim desde que George a mandou castrar.
O jantar está pronto, anunciou George lá de dentro da cozinha.
Não era propriamente um manjar dos deuses. Nem ele tinha muita paciência para a arte do empratar. Mesmo assim, hoje tinha-se esmerado de tal forma que deixou escapar um uivo de satisfação ao mesmo tempo que contemplou a mesa posta. Rute sentou-se no banco que continuava com um dos parafusos por apertar e quase se estatelou no chão. Com uma serenidade aparente, troca rapidamente o banco pela cadeira e pega de imediato no copo cheio de vinho. Dá um longo golo. Como sempre, os jantares de George e Rute começam apenas com o barulho da mastigação. Chegam mesmo a fazer, involuntariamente, uma espécie de desgarrada de sons vindos dos dentes a moerem pedaços de tosta, do queijo a empapar-se de saliva, do pão a ser deglutido. Uma espécie de festival de barulhinhos viscosos. O vinho, esse, um reserva tinto de 2001, lá lhes ia escorrendo pelas gargantas abaixo. George tem um truque. Assim que as tremuras das suas mãos abrandassem, então era porque já tinha bebido o suficiente para ser capaz de falar. O tema, esse, como sempre, era o amor.
(continua)
segunda-feira, abril 14, 2008
O DIA EM QUE OS PÁSSAROS DEIXARÃO DE CANTAR
Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que torna a gente incapaz de se lembrar que o canal que separa a Inglaterra da França se chama canal da mancha e não canal da mácula. Não. Sentia-se sobretudo cansado de si próprio. O que era estranho. Às vezes, num rasgo de vaidade literária, encontrava-se com Dante Aligheri, na sua Divina Comédia:
«No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no momento
em que a via veraz abandonei.»
Um encontro que lhe fazia bem porque era mesmo assim que se sentia. Robert encontrava-se numa selva escura. O que lhe faltava era um sentido para a sua vida. O que lhe mordia os calcanhares era uma espécie de lucidez perante a vida. É que via claro demais. Robert sabia também que um dia os pássaros deixariam de cantar. E isso cansava-o. Porque era uma lucidez aspra e forte, tal como a selva selvagem. Às vezes apetecia-lhe abraçar-se a si próprio e ficar assim, bem apertadinho, cheirando o seu perfume misturado com o cheiro a alho, à espera de Godot. E enquanto isso, só para passar o tempo, enforcar-se num ramo de uma «cola de caballo grande» qualquer lá para os lados da Costa Rica, onde estas plantas crescem como se fossem árvores, e pingar a terra com o seu esperma, precisamente aquele pedaço de terra onde irão depois nascer montes de mandrágoras. E assim, enquanto esperava, sempre se podia entreter a arrancá-las e a ouvir os seus gritos fatais mas que não o incomodavam minimamente porque Robert sabia que, se um dia os pássaros deixarão de cantar, então as mandrágoras também. E isso sim é que lhe revolvia as entranhas e o atirava para uma luta corpo a corpo consigo próprio, num beco, no mesmo beco de sempre. E Robert estava cansado desse beco e dessas lutas. Para os outros, não tinha motivo nenhum para se sentir infeliz. Ele insistia que não era infeliz que se sentia. Mas sim cansado. Só isso. Cansado. Mas um cansaço entranhado na pele. Na alma. Mesmo assim, para os outros, e, em certa medida, até para ele, não tinha motivos. Reparem. Fez o doutoramento na Sorbonne, donde trouxe aquele ar de quem passa grande parte do dia a dizer poemas de amor junto do rio Senna. Fazia duas viagens por ano, uma europeia e outra intercontinental. Recebia muitos e-mails, o seu gabinete na faculdade estava sempre cheio de gente, dava muitas aulas, publicava muitos artigos e escrevia muitos livros, tinha muitos amigos, ia a muitos jantares e concertos e, sobretudo, tinha o amor da sua vida sempre bem juntinho de si e que lhe soprava palavras doces no ouvido. Porém, sentia-se cansado de si próprio. Às vezes dava por si a trautear, entre dentes, estes versos:
«Não há forças na minh’alma.
P’ra sozinho andar p’la Terra…»
Outras vezes Robert era assolado por uma vontade incontrolável de ir até ao Taiti e procurar vorazmente o ancião de Diderot, para o ouvir dizer: «Enfia-te, se quiseres, na floresta obscura com a companheira perversa dos teus prazeres, mas deixa aos bons e simples Otaitianos reproduzirem-se sem vergonha, à face do céu e no dia claro». Às vezes desejava apenas que não existisse amanhã. É que sem amanhã não haveria angústia. Sem amanhã Robert seria como as aves que, por mais que voem, chegam sempre no mesmo dia.
Uma vez uma colega da faculdade virou-se para ele e disse-lhe: «Se tens problemas vai ter com a tua mãe. Para que é que servem as mães?» Ele limitava-se a ouvir. Não tinha sequer coragem de lhe dizer que estava enganada, que éramos todos órfãos existenciais. E, além disso, nem toda a água acalma a nossa sede. É claro que há pessoas que pensam que a vida vale a pena pelas coisas boas que aconteceram. Só que, lá está, mais uma vez é água que não acalma a nossa sede. Porque tudo é tão pouco. E se a vida é o que é, é porque a gente não pensa. E não opta. E não faz. E isso cansa.
Insisto. Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que faz até com que Deus perca por momentos a sua omnisciência e diga ao bonobo que se vá embora porque ele não é um animal que possa ter uma cauda, porque ele é um homem. Não. Sentia-se cansado de si próprio. E de tudo aquilo em que tinha começado a transformar-se no preciso momento em que nasceu. E lhe vestiram umas coisas que lhe ficam curtas. E lhe prometeram que tudo é para sempre.
Pois. Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que nos faz inventar uma desculpa qualquer para não fazer amor com o nosso amor pura e simplesmente porque não somos capazes de por o pénis duro. Não. Sentia-se cansado de si próprio. Da promessa de si. Da experiência de si. E do mundo lá de fora que não avança, que apenas promete e insinua.
«Sim, farei…; e hora a hora passa o dia…
Farei, e dia a dia passa a mês…
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.»
Farei, farei… Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo… E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão…
Farei, farei, farei… Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo – a paz, a ilusão, a glória…
Que obscuro absurdo na minha alma chora?»
Sim, era isso. Robert não queria ser mais o homem marçano de Álvaro de Campos que dorme o sono, que come comida, que bebe bebida, e por isso é feliz. Queria escolher o que ser. Queria inventar-se do princípio. Constituir a sua existência num regime de sentido escolhido por si. Chutar para fora da sua alma (o que quer que isto queira dizer!), esse obscuro absurdo que mói e que cansa. Percorrer um caminho longe do vale de sombras. E percorrer esse caminho levando consigo «o espinho essencial de ser consciente» como dizia, mais uma vez, Álvaro de Campos.
E, para isso, Robert tinha um plano.
(continua)
Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que torna a gente incapaz de se lembrar que o canal que separa a Inglaterra da França se chama canal da mancha e não canal da mácula. Não. Sentia-se sobretudo cansado de si próprio. O que era estranho. Às vezes, num rasgo de vaidade literária, encontrava-se com Dante Aligheri, na sua Divina Comédia:
«No meio do caminho em nossa vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e forte,
que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no momento
em que a via veraz abandonei.»
Um encontro que lhe fazia bem porque era mesmo assim que se sentia. Robert encontrava-se numa selva escura. O que lhe faltava era um sentido para a sua vida. O que lhe mordia os calcanhares era uma espécie de lucidez perante a vida. É que via claro demais. Robert sabia também que um dia os pássaros deixariam de cantar. E isso cansava-o. Porque era uma lucidez aspra e forte, tal como a selva selvagem. Às vezes apetecia-lhe abraçar-se a si próprio e ficar assim, bem apertadinho, cheirando o seu perfume misturado com o cheiro a alho, à espera de Godot. E enquanto isso, só para passar o tempo, enforcar-se num ramo de uma «cola de caballo grande» qualquer lá para os lados da Costa Rica, onde estas plantas crescem como se fossem árvores, e pingar a terra com o seu esperma, precisamente aquele pedaço de terra onde irão depois nascer montes de mandrágoras. E assim, enquanto esperava, sempre se podia entreter a arrancá-las e a ouvir os seus gritos fatais mas que não o incomodavam minimamente porque Robert sabia que, se um dia os pássaros deixarão de cantar, então as mandrágoras também. E isso sim é que lhe revolvia as entranhas e o atirava para uma luta corpo a corpo consigo próprio, num beco, no mesmo beco de sempre. E Robert estava cansado desse beco e dessas lutas. Para os outros, não tinha motivo nenhum para se sentir infeliz. Ele insistia que não era infeliz que se sentia. Mas sim cansado. Só isso. Cansado. Mas um cansaço entranhado na pele. Na alma. Mesmo assim, para os outros, e, em certa medida, até para ele, não tinha motivos. Reparem. Fez o doutoramento na Sorbonne, donde trouxe aquele ar de quem passa grande parte do dia a dizer poemas de amor junto do rio Senna. Fazia duas viagens por ano, uma europeia e outra intercontinental. Recebia muitos e-mails, o seu gabinete na faculdade estava sempre cheio de gente, dava muitas aulas, publicava muitos artigos e escrevia muitos livros, tinha muitos amigos, ia a muitos jantares e concertos e, sobretudo, tinha o amor da sua vida sempre bem juntinho de si e que lhe soprava palavras doces no ouvido. Porém, sentia-se cansado de si próprio. Às vezes dava por si a trautear, entre dentes, estes versos:
«Não há forças na minh’alma.
P’ra sozinho andar p’la Terra…»
Outras vezes Robert era assolado por uma vontade incontrolável de ir até ao Taiti e procurar vorazmente o ancião de Diderot, para o ouvir dizer: «Enfia-te, se quiseres, na floresta obscura com a companheira perversa dos teus prazeres, mas deixa aos bons e simples Otaitianos reproduzirem-se sem vergonha, à face do céu e no dia claro». Às vezes desejava apenas que não existisse amanhã. É que sem amanhã não haveria angústia. Sem amanhã Robert seria como as aves que, por mais que voem, chegam sempre no mesmo dia.
Uma vez uma colega da faculdade virou-se para ele e disse-lhe: «Se tens problemas vai ter com a tua mãe. Para que é que servem as mães?» Ele limitava-se a ouvir. Não tinha sequer coragem de lhe dizer que estava enganada, que éramos todos órfãos existenciais. E, além disso, nem toda a água acalma a nossa sede. É claro que há pessoas que pensam que a vida vale a pena pelas coisas boas que aconteceram. Só que, lá está, mais uma vez é água que não acalma a nossa sede. Porque tudo é tão pouco. E se a vida é o que é, é porque a gente não pensa. E não opta. E não faz. E isso cansa.
Insisto. Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que faz até com que Deus perca por momentos a sua omnisciência e diga ao bonobo que se vá embora porque ele não é um animal que possa ter uma cauda, porque ele é um homem. Não. Sentia-se cansado de si próprio. E de tudo aquilo em que tinha começado a transformar-se no preciso momento em que nasceu. E lhe vestiram umas coisas que lhe ficam curtas. E lhe prometeram que tudo é para sempre.
Pois. Robert não se sentia apenas cansado, naquele cansaço próprio do quotidiano que nos faz inventar uma desculpa qualquer para não fazer amor com o nosso amor pura e simplesmente porque não somos capazes de por o pénis duro. Não. Sentia-se cansado de si próprio. Da promessa de si. Da experiência de si. E do mundo lá de fora que não avança, que apenas promete e insinua.
«Sim, farei…; e hora a hora passa o dia…
Farei, e dia a dia passa a mês…
E eu, cheio sempre só do que faria,
Vejo que o que faria se não fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.»
Farei, farei… Anos os meses são
Quando são muitos-anos, toda a vida,
Tudo… E sempre a mesma sensação
Que qualquer cousa há-de ser conseguida,
E sempre quieto o pé e inerte a mão…
Farei, farei, farei… Sim, qualquer hora
Talvez me traga o esforço e a vitória,
Mas será só se mos trouxer de fora.
Quis tudo – a paz, a ilusão, a glória…
Que obscuro absurdo na minha alma chora?»
Sim, era isso. Robert não queria ser mais o homem marçano de Álvaro de Campos que dorme o sono, que come comida, que bebe bebida, e por isso é feliz. Queria escolher o que ser. Queria inventar-se do princípio. Constituir a sua existência num regime de sentido escolhido por si. Chutar para fora da sua alma (o que quer que isto queira dizer!), esse obscuro absurdo que mói e que cansa. Percorrer um caminho longe do vale de sombras. E percorrer esse caminho levando consigo «o espinho essencial de ser consciente» como dizia, mais uma vez, Álvaro de Campos.
E, para isso, Robert tinha um plano.
(continua)
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
AS ALUCINAÇÕES DO HOMEM DE LATA
Ela não parecia ser mais uma mulher. Não parecia e não era. Quando o meu pénis ficava duro não era porque o meu interesse estava apenas focado nos seus grandes lábios. Aquilo era vontade mas também necessidade de representação. Quando o meu pénis ficava duro era porque o meu interesse estava focado na essência daquela mulher. Na essência. Sim. Porque um homem não é de lata. Porque um homem também quer sempre mais qualquer coisa. Porque um homem também alucina. E vislumbra salas e quartos repletos de molduras a enquadrar aquilo que lhe parece ser uma felicidade para sempre. É que ela não parecia ser mais uma mulher. Mas sim a mulher. Não só porque me punha o pénis duro mas porque me fazia interessar pela sua essência. Às vezes, só por ser mulher, a mulher consegue revelar o homem num homem. Não havia dúvidas. Era com aquela mulher que eu queria transformar-me naquilo que eu sou. Uma espécie de representação para uma vida de glória. Ela era a personagem que me faltava. A personagem que eu procurava. Que eu sempre procurei. Aquela era, sem dúvida, a mulher da minha vida. Tenho a certeza disso. Foi pena não ter percebido isso antes dela se ir embora. Foi pena não ter estado atento. De facto, foi pena.
Ela não parecia ser mais uma mulher. Não parecia e não era. Quando o meu pénis ficava duro não era porque o meu interesse estava apenas focado nos seus grandes lábios. Aquilo era vontade mas também necessidade de representação. Quando o meu pénis ficava duro era porque o meu interesse estava focado na essência daquela mulher. Na essência. Sim. Porque um homem não é de lata. Porque um homem também quer sempre mais qualquer coisa. Porque um homem também alucina. E vislumbra salas e quartos repletos de molduras a enquadrar aquilo que lhe parece ser uma felicidade para sempre. É que ela não parecia ser mais uma mulher. Mas sim a mulher. Não só porque me punha o pénis duro mas porque me fazia interessar pela sua essência. Às vezes, só por ser mulher, a mulher consegue revelar o homem num homem. Não havia dúvidas. Era com aquela mulher que eu queria transformar-me naquilo que eu sou. Uma espécie de representação para uma vida de glória. Ela era a personagem que me faltava. A personagem que eu procurava. Que eu sempre procurei. Aquela era, sem dúvida, a mulher da minha vida. Tenho a certeza disso. Foi pena não ter percebido isso antes dela se ir embora. Foi pena não ter estado atento. De facto, foi pena.
quinta-feira, setembro 27, 2007
BEBES-ME PARA ESQUECER
Hoje, depois de me teres ido esperar ao aeroporto, depois de termos dormido juntos, depois de termos passado a noite toda a amar-nos corpo a corpo, depois de ter pensado que agora é que íamos ser felizes para sempre, depois de teres prometido que sim, que agora é que íamos ser felizes para sempre, depois de me teres perguntado como é que iriam ser os nossos filhos, depois de teres ido embora, depois de me teres esquecido, estatelei-me contra essa grande verdade, que só é grande porque encontra nas palavras um sentido para tudo aquilo que estamos a sentir e a não querer sentir. Bebes-me para esquecer. É isso mesmo. Bebes-me com a mesma convicção, com a mesma certeza, com o mesmo desespero de quem acha que, depois de beber uns co(r)pos, os problemas desaparecem. Bebes-me para esquecer. Não para me esquecer. Bebes-me para esquecer o outro, aquele, o tal. E bebes-me com urgência porque também com urgência precisas de esquecer. Talvez por isso te entregas de corpo mas não de alma. Por favor, diz-me quem vês quando fechas os olhos de cada vez que te beijo no pescoço ou te mordisco o lóbulo da orelha. Eu preciso de saber mesmo que diga que não quero saber. Espera. Não digas. Já sei que não sou eu quem vês. Eu não passo de um corpo onde podes projectar quem perdeste e esquecer também quem perdeste, tudo ao mesmo tempo. Quando me olhas não é a mim que vês, não é a mim que queres ver, não é a mim que precisas de ver. Para ti não tenho definições. Não sou uma imagem nítida. O teu olhar sobre mim é míope. Desfocas-me. E eu, de repente, para ti, passo a ser um vestígio daquilo que perdeste, daquilo que vai lá longe e que à medida que se vai afastando, a definição vai-se perdendo. Na verdade, porque não querias que essa imagem acabasse por se desvanecer na linha do horizonte, inventaste-me só para ainda o teres, isto é, quem perdeste, mais um bocadinho. E, talvez, para sempre. Se a vida só fosse feita de hoje, então agora é que íamos ser felizes para sempre mesmo. Mas não. O amanhã é outro dia. Acorda-se com uma dor de cabeça gigantesca que mais não é do que uma ressaca daquilo que se fez ontem. As roupas estão espalhadas pelo chão do quarto, os joelhos estão esfolados, os lençóis escandalosamente amachucados, duas almofadas. Hoje, quando acordaste e olhaste para mim da mesma forma que o tinhas feito quando me olhaste na primeira vez que foste embora, percebi tudo. Nem precisaste de dizer uma única palavra. Vesti-me e fui-me embora. Já tinhas esquecido quem precisavas esquecer. Da mesma forma que não se esquecem garrafas vazias, também eu não precisava de ser esquecido. Precisamente porque, para ti, eu nunca existi. Tudo isto não mata mas mói. E podemos até enfiar-nos no carro e pôr bem alto a música do Paulo Gonzo que diz «Males de amor, quem é que os não tem, sempre tão fatais, mas no fim, não matam ninguém, passam e nada mais (...)». As coisas até podem ser assim, podemos até convencer-nos e, sobretudo, convencer os nossos amigos que aquilo já passou, que a vida continua, que agora somos muito amigos, bla, bla, bla... Mas, bem fundo, uma dorzita incomoda-nos. Tentamos ignorá-la, tomamos comprimidos, chás e outras coisas que tais. Nada funciona. Na verdade, essa dorzita não é mais do que o cansaço pelos murros no estômago que vamos coleccionando e que têm, como efeito mais imediato, a confusão das coisas. Meio perdidos, meio desiludidos, meio convencidos, meio empenhados em recomeçar do zero, meio apaixonados, meio tristes, meio zangados, meio resignados, meio cansados, lá continuamos o nosso caminho em direcção ao fim com um balão de pensamento por cima de nós afirmando «Agora é que eu vou ser feliz para sempre.» ao mesmo tempo que vislumbramos alguém a cruzar o nosso caminho. E lá recomeça tudo outra vez. Na verdade, tudo isto é simbólico da forma como fazemos acontecer a vida. Bebemos uns para esquecer outros. Obviamente que isto não tem mal nenhum até porque o mal, esse, vai todo para quem não aguenta ser bebido, para quem não aguenta mesmo tendo de aguentar. Ontem bebeste-me para esquecer. Amanhã, é a minha vez de beber para te esquecer.
Hoje, depois de me teres ido esperar ao aeroporto, depois de termos dormido juntos, depois de termos passado a noite toda a amar-nos corpo a corpo, depois de ter pensado que agora é que íamos ser felizes para sempre, depois de teres prometido que sim, que agora é que íamos ser felizes para sempre, depois de me teres perguntado como é que iriam ser os nossos filhos, depois de teres ido embora, depois de me teres esquecido, estatelei-me contra essa grande verdade, que só é grande porque encontra nas palavras um sentido para tudo aquilo que estamos a sentir e a não querer sentir. Bebes-me para esquecer. É isso mesmo. Bebes-me com a mesma convicção, com a mesma certeza, com o mesmo desespero de quem acha que, depois de beber uns co(r)pos, os problemas desaparecem. Bebes-me para esquecer. Não para me esquecer. Bebes-me para esquecer o outro, aquele, o tal. E bebes-me com urgência porque também com urgência precisas de esquecer. Talvez por isso te entregas de corpo mas não de alma. Por favor, diz-me quem vês quando fechas os olhos de cada vez que te beijo no pescoço ou te mordisco o lóbulo da orelha. Eu preciso de saber mesmo que diga que não quero saber. Espera. Não digas. Já sei que não sou eu quem vês. Eu não passo de um corpo onde podes projectar quem perdeste e esquecer também quem perdeste, tudo ao mesmo tempo. Quando me olhas não é a mim que vês, não é a mim que queres ver, não é a mim que precisas de ver. Para ti não tenho definições. Não sou uma imagem nítida. O teu olhar sobre mim é míope. Desfocas-me. E eu, de repente, para ti, passo a ser um vestígio daquilo que perdeste, daquilo que vai lá longe e que à medida que se vai afastando, a definição vai-se perdendo. Na verdade, porque não querias que essa imagem acabasse por se desvanecer na linha do horizonte, inventaste-me só para ainda o teres, isto é, quem perdeste, mais um bocadinho. E, talvez, para sempre. Se a vida só fosse feita de hoje, então agora é que íamos ser felizes para sempre mesmo. Mas não. O amanhã é outro dia. Acorda-se com uma dor de cabeça gigantesca que mais não é do que uma ressaca daquilo que se fez ontem. As roupas estão espalhadas pelo chão do quarto, os joelhos estão esfolados, os lençóis escandalosamente amachucados, duas almofadas. Hoje, quando acordaste e olhaste para mim da mesma forma que o tinhas feito quando me olhaste na primeira vez que foste embora, percebi tudo. Nem precisaste de dizer uma única palavra. Vesti-me e fui-me embora. Já tinhas esquecido quem precisavas esquecer. Da mesma forma que não se esquecem garrafas vazias, também eu não precisava de ser esquecido. Precisamente porque, para ti, eu nunca existi. Tudo isto não mata mas mói. E podemos até enfiar-nos no carro e pôr bem alto a música do Paulo Gonzo que diz «Males de amor, quem é que os não tem, sempre tão fatais, mas no fim, não matam ninguém, passam e nada mais (...)». As coisas até podem ser assim, podemos até convencer-nos e, sobretudo, convencer os nossos amigos que aquilo já passou, que a vida continua, que agora somos muito amigos, bla, bla, bla... Mas, bem fundo, uma dorzita incomoda-nos. Tentamos ignorá-la, tomamos comprimidos, chás e outras coisas que tais. Nada funciona. Na verdade, essa dorzita não é mais do que o cansaço pelos murros no estômago que vamos coleccionando e que têm, como efeito mais imediato, a confusão das coisas. Meio perdidos, meio desiludidos, meio convencidos, meio empenhados em recomeçar do zero, meio apaixonados, meio tristes, meio zangados, meio resignados, meio cansados, lá continuamos o nosso caminho em direcção ao fim com um balão de pensamento por cima de nós afirmando «Agora é que eu vou ser feliz para sempre.» ao mesmo tempo que vislumbramos alguém a cruzar o nosso caminho. E lá recomeça tudo outra vez. Na verdade, tudo isto é simbólico da forma como fazemos acontecer a vida. Bebemos uns para esquecer outros. Obviamente que isto não tem mal nenhum até porque o mal, esse, vai todo para quem não aguenta ser bebido, para quem não aguenta mesmo tendo de aguentar. Ontem bebeste-me para esquecer. Amanhã, é a minha vez de beber para te esquecer.
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